Darío Canton | Escritor
Sabado 15 de Diciembre de 2018
 
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Um poeta argentino
Por Eustáquio Gomes
Revista Metrópole - Diario Correio Popular de Campinas, San Pablo, Brasil
30 de Octubre de 2005
 

Em 1975, depois de ler uma nota na extinta revista Visão, me candidatei a receber um boletim de poesia intitulado Asemal. Era distribuído gratuitamente, vinha de Buenos Aires e assinava-o um poeta então desconhecido para mim. Chamava-se Darío Canton. Impresso em papel pardo de boa gramatura e paginação excelente, trazia uma advertência de cada lado do título: "Leia devagar, mastigue bem as palavras". Uma coruja encimava o dístico da direita. Já no poema de abertura fiquei fascinado com o tom epigramático:

Um dia o homem entra no metrô
dirige-se ao emprego
o trem fecha as portas
não as abre mais.

Apesar de graves, os poemas de Asemal comportavam uma fina ironia que parecia antecipar o horror metafísico de nossos dias: "O avião liga seus motores / experimenta-os / acelera; / o ruído a tudo obscurece. / Alguém começa a gritar / e é acompanhado pelos demais. / Enrouquecemos / sem poder ouvir. / Furiosos / desfazemos os motores / destruímos o avião".

Na esteira aberta pelo boletim de poesia, Canton e eu iniciamos uma correspondência que se estendeu por vários meses. Eu tinha 22 anos, Canton 47. Ele me explicou que "Asemal" era La Mesa (título de um de seus livros) ao contrário, sendo também uma corruptela de "hace mal", com o que insinuava que a acidez de seus poemas poderia fazer mal aos leitores. Revelou também que tinha quatro filhos, igual número de casamentos, meia dúzia de livros de sociologia e outro tanto de poesia. Era um scholar corroído pelo vírus do tedium vitae, porém cheio de interesse pela existência.

Presunçoso, eu lhe dizia que já havia me livrado da metade de meus sonhos literários (quando nem os tinha principiado ainda). Ou melhor, acusava a fábrica onde trabalhava de havê-los aniquilado, quando nenhum outro lugar me daria um ambiente tão kafkianamente literário quanto a fábrica. Apesar disso, sonhava alto: ambicionava formar uma comunidade de poetas que dialogasse sobre as graves questões da poesia e abarcasse não só o Brasil mas toda a América Latina e, quem sabe, terminasse por fazer uma espécie de revolução pela palavra.

Canton sorria a distância e eu logo senti nos ombros o peso do projeto anunciado que minha tendência à quietude não suportaria. Houve então um lapso de nove meses em nossa correspondência, ao fim dos quais eu já nem me lembrava de meus grandiosos planos de antes. O próprio Canton, na Argentina do general Videla, não tinha vida fácil e Asemal enfrentava dificuldades de financiamento. Os assinantes do boletim haviam proliferado em vários países (na verdade, Canton estava fazendo o que eu sonhara fazer) e em suas cartas queixava-se de que não havia mais "ânimo nem tempo para a literatura em geral e menos ainda para a poesia". Nessa época batia-se arduamente para terminar um estudo sobre as eleições argentinas de 1973.

Em julho de 1976 reapareci diante dele para em seguida desaparecer de novo. "Pensou que morri? Que fui preso pela polícia política? Não. Foram meses de crise íntima. Tudo interrompido: poesia, correspondência, romances". Canton, magnânimo, não se abalava com nada. Houve mais algumas cartas e então começou uma hibernação de trinta anos durante os quais perdi o emprego na fábrica, mudei de cidade, empreguei-me de novo, botei gravata, voltei à velha casa, tirei a gravata, meus filhos cresceram, escrevi livros e afinal, primata incorrigível, continuei sonhando tanto quanto antes.

Enquanto isso, em Buenos Aires, Canton continuou produzindo poemas e até uma guerra, a das Malvinas, lhe coube viver. Ultimamente voltamos a cartear, desta vez por e-mail, essa espantosa invenção que estávamos longe de poder imaginar, na época. Naturalmente levei um susto: eu tinha agora 53 anos, ele 77. E minha memória de Canton (a das cartas, já que nunca nos vimos pessoalmente) figurava ainda o poeta de 47 anos que distribuía boletins de poesia pelos quadrantes da América Latina. Mas animicamente parece não ter mudado nada: encontro-o empenhado no hercúleo projeto de escrever sua autobiografia em seis volumes, dos quais três já foram publicados. Sob o título geral de De la misma llama (Da mesma chama), surpreendo-me ao encontrar no primeiro tomo (La historia de Asemal y sus lectores) a história de nossas correspondência e a reprodução de todas as cartas trocadas, ao lado de numerosas outras de outros ‘asemalinos’ tão fascinados quanto eu por sua poesia. Que estranha sensação a de relê-las. Se há nelas algo de patético, também fornecem uma impressão de unidade ao juntar dois extremos de minha vida (e, suponho, também da vida de Canton) com uma espécie de arco voltaico filosófico.

A autobiografia de Canton é sobretudo a história de sua entrega à literatura. Num país onde abundam grandes poetas e romancistas, não é fácil fazer um inventário de si mesmo sem buscar comparações. Há Borges, o paradigma, mas eu prefiro Canton. Leio aqui e ali, na web, que "Canton é um poeta a quem não se deu ainda a devida atenção na Argentina", mas cuja obra está germinando no coração dos novos poetas e no silêncio do tempo histórico. Acredito nisso. Sua poesia de recorte cubista, seu ritmo que a aproxima às vezes da prosa de jornal, factual e elíptica, talvez seja desconcertante demais para uma época em que o romantismo ainda não se rendeu de todo. E agora, ao folhear novamente os velhos números de Asemal, sinto-me preso no espelho de um de seus poemas daquele tempo:

Como alguém que dormiu
longos anos
e constata
ao despertar
que ao redor tudo mudou
assim eu
agora.
 
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